Destinatário
Toda palavra supõe um destinatário.
Ao procurar um psicanalista, é comum encontrarmos nas redes sociais diversos perfis que prometem soluções rápidas para os problemas da vida. Em geral, apresentam listas, fórmulas ou explicações prontas sobre o sofrimento psíquico. Embora esse tipo de conteúdo possa despertar interesse pelo tema, a experiência psicanalítica segue outra direção: não começa por uma resposta, mas por uma fala que encontra um destinatário.
Quem procura um analista faz de sua fala um endereçamento. Como numa carta, não basta que haja algo a ser dito; é preciso que haja alguém a quem essa fala possa ser endereçada. É por meio da transferência que o analista passa a ocupar esse lugar de destinatário. Neste sentido, a análise é para aqueles que procuram por um analista. O que num primeiro momento pode parecer redundante, mas é precisamente a aposta fundamental de toda psicanálise: que cada caso possa ser analisado em sua singularidade. A psicanálise se dá no um a um, e não por generalizações, daí que não haja resposta pronta para os conflitos que cada um sustenta com sua existência.
Aquilo que é dito ao analista não permanece idêntico a si mesmo. Uma lembrança conduz a outra, uma palavra remete a outra palavra, um sonho faz surgir uma história esquecida. É esse movimento que caracteriza a regra fundamental da psicanálise, isto é, o que chamamos de associação livre. Para a análise, não se exige preparação prévia, tampouco que o paciente saiba o que dizer ou que tenha explicações sobre o próprio sofrimento. O trabalho analítico começa justamente a partir daquilo que pode ser colocado em palavras, mesmo que o que for dito seja sem sentido, ou "qualquer coisa".
Pode-se falar qualquer coisa, mas não se trata de uma coisa qualquer.
Victor Hugo Martins
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Imagem: Obra sem título da série "Objetos Gráficos" (1967), de Mira Schendel